É muito comum encontrar as duas condições na mesma pessoa: diabetes tipo 2 e pressão alta. Boa parte das pessoas acha que isso é coincidência, ou só um "efeito colateral" de estar acima do peso ou de envelhecer. Mas existe uma ligação direta entre as duas, e ela passa pelo mesmo hormônio que é o fio condutor de todo esse blog: a insulina.
Por que essas duas condições aparecem juntas com tanta frequência
Resistência à insulina, diabetes tipo 2, pressão alta, triglicerídeos elevados e gordura concentrada na barriga costumam aparecer juntos com tanta frequência que, desde a década de 1980, esse conjunto já tinha nome na literatura médica: síndrome metabólica. Isso não é uma simples lista de "problemas de saúde que por acaso costumam coexistir". Existe um mecanismo comum por trás de boa parte desses problemas, e o excesso de insulina circulando no sangue é uma peça central nele.
O papel da insulina no aumento da pressão
Uma revisão científica publicada no periódico Advances in Chronic Kidney Disease, de autoria de Rao, Pandya e Whaley-Connell (2015), reúne os principais mecanismos que ligam a resistência à insulina ao aumento da pressão arterial. Os principais são três:
- Retenção de sódio pelos rins. A insulina, em excesso, aumenta a reabsorção de sódio nos rins, ou seja, faz o corpo reter mais sódio e, com ele, mais água. Isso aumenta o volume de sangue circulando, e mais volume dentro dos vasos significa mais pressão nas paredes deles.
- Ativação do sistema nervoso simpático. O excesso de insulina estimula a parte do sistema nervoso responsável pela resposta de "alerta" do corpo, aumentando a frequência cardíaca e contraindo os vasos sanguíneos, dois fatores que elevam a pressão diretamente.
- Disfunção do endotélio, a camada interna dos vasos sanguíneos. Em condições normais, a insulina ajuda os vasos a relaxar e dilatar, através da produção de óxido nítrico. Na resistência à insulina, esse efeito de relaxamento fica prejudicado, mas os outros efeitos da insulina continuam funcionando normalmente ou até de forma exagerada — o que é chamado de resistência à insulina seletiva.
(DOI da revisão citada acima: 10.1053/j.ackd.2014.12.004)
Por que isso não é só coincidência
Esses mecanismos explicam por que diabetes tipo 2 e pressão alta não são só "duas doenças que gostam de aparecer juntas por azar". Elas compartilham uma causa comum bem estabelecida, o excesso de insulina circulando no sangue por tempo prolongado. Isso também explica por que, na prática clínica, é tão comum ver a pressão arterial melhorar em pessoas que reduzem a resistência à insulina através de mudanças na alimentação, mesmo antes de qualquer perda de peso significativa.
O que fazer com essa informação
Se você tem diabetes tipo 2, resistência à insulina ou histórico familiar dessas condições, vale medir a pressão arterial com regularidade, mesmo sendo jovem ou sem sintomas aparentes, já que a pressão alta ligada à resistência à insulina pode se desenvolver de forma silenciosa, assim como a própria resistência à insulina. Da mesma forma, se a pressão já está alta, vale investigar a insulina de jejum e o índice HOMA-IR, e não assumir que se trata só de uma questão isolada de pressão.
Do ponto de vista prático, os mesmos princípios já discutidos nos outros posts deste blog se aplicam aqui: reduzir o consumo de carboidratos refinados e açúcar ajuda a diminuir os níveis de insulina circulante, o que por sua vez tende a aliviar os três mecanismos descritos acima. Cuidar do sono e do estresse também importa, já que ambos afetam diretamente a atividade do sistema nervoso simpático mencionado mais acima.
