Muita gente estranha quando vê a glicemia de jejum mais alta logo ao acordar do que em outros horários do dia, mesmo tendo passado a noite inteira sem comer nada. A explicação não tem relação com o jantar da noite anterior. Ela está num mecanismo hormonal natural chamado fenômeno do alvorecer, que acontece com todo mundo, mas que em quem já tem alguma resistência à insulina aparece de forma bem mais evidente no exame.
O que é o fenômeno do alvorecer
Nas primeiras horas da madrugada, o corpo começa a se preparar para acordar. Para isso, libera uma combinação de hormônios como cortisol, hormônio do crescimento e adrenalina, que têm a função de sinalizar ao fígado que é hora de disponibilizar energia para o dia que está prestes a começar. O fígado responde liberando glicose armazenada na corrente sanguínea, mesmo sem nenhum alimento ter sido ingerido.
Em uma pessoa sem resistência à insulina, o pâncreas responde a esse aumento de glicose liberando um pouco mais de insulina, o suficiente para equilibrar as coisas rapidamente. Em quem já tem resistência à insulina instalada, esse ajuste fino não funciona direito, e a glicose liberada pelo fígado fica circulando em excesso por mais tempo. É por isso que o exame de glicemia colhido logo ao acordar aparece elevado, mesmo com o jejum da noite inteira sendo cumprido à risca.
Por que isso engana o exame de glicemia de jejum
A glicemia de jejum é, historicamente, o exame mais pedido em consultas de rotina para rastrear diabetes. O problema é que esse exame captura justamente o momento em que o fenômeno do alvorecer está em ação, o que pode dar a falsa impressão de que o problema é a última refeição do dia anterior. Isso leva a orientações que não vão à raiz da questão, como simplesmente cortar o jantar ou trocar o horário da última refeição, sem que isso resolva o mecanismo hormonal por trás do número alto no exame.
Um exame de insulina de jejum, avaliado junto com a glicemia, costuma dar uma visão bem mais completa do que está acontecendo, porque mostra o quanto o pâncreas está trabalhando para manter esse equilíbrio. Uma insulina de jejum elevada, mesmo com glicemia ainda dentro da faixa considerada normal, é um sinal de que o processo de resistência à insulina já está em curso, bem antes de qualquer exame de glicemia acusar alguma coisa.
Fenômeno do alvorecer e efeito Somogyi não são a mesma coisa
Existe um outro mecanismo que também deixa a glicemia alta ao acordar, mas por um caminho diferente, chamado efeito Somogyi. Nele, a glicose cai bastante durante a madrugada, e o corpo reage a essa queda liberando hormônios de estresse para corrigir a situação, o que gera um efeito rebote de glicose alta pela manhã. A diferença prática é que, no efeito Somogyi, costuma haver sinais de uma queda de açúcar no meio da noite, como suor noturno, pesadelos ou despertares repentinos, o que não costuma acontecer no fenômeno do alvorecer clássico. Diferenciar os dois é importante, porque as duas situações pedem atenção a coisas diferentes, e confundir uma com a outra pode levar a decisões que pioram o quadro em vez de melhorar.
O que fazer com essa informação
Se a glicemia de jejum costuma vir alta mesmo com o jantar leve e cedo, vale conversar com um profissional sobre acompanhar também a insulina de jejum e, se possível, medir a glicose em outros horários da madrugada por alguns dias, para entender se o padrão bate mais com fenômeno do alvorecer ou com efeito Somogyi. Essa informação muda bastante o que faz sentido ajustar na rotina.
De forma geral, reduzir o consumo de carboidratos refinados ao longo do dia todo, não só à noite, ajuda o corpo a depender menos de picos de insulina para lidar com a glicose, o que tende a suavizar a resposta do fígado durante a madrugada com o tempo. Cuidar do sono também tem peso nessa equação, já que noites maldormidas aumentam a liberação de cortisol, um dos hormônios diretamente envolvidos nesse processo.
