Mulher com dor nas pernas sentada na cama, sinal de lipedema
Mitos da nutrição

Lipedema: por que essa gordura não sai com dieta e qual a relação com a resistência à insulina

Muita mulher passa anos ouvindo que só precisa "se esforçar mais" para emagrecer as pernas, sem saber que existe uma condição chamada lipedema por trás disso. É uma condição pouco conhecida, inclusive entre profissionais de saúde, e frequentemente confundida com obesidade ou com "gordura localizada" comum. Só que ela responde muito mal às estratégias de emagrecimento que funcionam para o resto do corpo, o que deixa muita gente se sentindo culpada por algo que não é uma questão de disciplina.

O que é o lipedema

Lipedema é um acúmulo de gordura nos membros inferiores (e às vezes também nos braços), de forma simétrica e desproporcional em relação ao resto do corpo. Afeta quase exclusivamente mulheres e, segundo estimativas, pode atingir cerca de 10% da população feminina, o que sugere que a condição é bem mais comum do que diagnosticada. A causa exata ainda não é totalmente conhecida, mas existe um componente genético importante.

Algumas características ajudam a diferenciar o lipedema de um simples acúmulo de gordura ou inchaço:

Nenhum desses sinais isolado fecha o diagnóstico, e vale reforçar que ele deve ser feito por um profissional (endocrinologista, angiologista ou outro médico familiarizado com o quadro), já que segue sendo uma condição subdiagnosticada.

Lipedema não é obesidade, mas as duas podem coexistir

Esse é talvez o ponto mais importante para desfazer um mal-entendido comum. O lipedema não é causado por comer demais, e não é a "gordura normal" que se acumula com o excesso de peso. Ele pode acontecer em mulheres magras e pode também coexistir com obesidade, sendo agravado por ela, mas são processos diferentes. É por isso que, historicamente, muitas mulheres com lipedema já ouviram que "só precisam emagrecer mais", uma orientação que ignora o fato de que a gordura do lipedema responde de forma diferente do resto do corpo a essa estratégia.

Outra diferença importante é o comportamento inflamatório dessa gordura. A revisão científica "Lipedema: A Disease Triggered by M2 Polarized Macrophages?" (DOI: 10.3390/biomedicines13030561), publicada em 2025 na revista Biomedicines, mostrou que o tecido do lipedema é infiltrado principalmente por um tipo de célula de defesa chamada macrófago M2, que expressa em grande quantidade uma proteína chamada CD163. Esse tipo de célula libera sinais inflamatórios, incluindo a interleucina-6 (IL-6), que parecem estimular diretamente o acúmulo de gordura nessa região. É um padrão diferente do que costuma aparecer na obesidade clássica, onde predominam macrófagos do tipo M1, geralmente ligados a um processo inflamatório mais espalhado pelo corpo todo. Os próprios pesquisadores reconhecem que ainda não está totalmente claro se a inflamação e o estresse oxidativo estão de fato aumentados no lipedema de forma geral, mas o papel local dessa sinalização inflamatória no acúmulo de gordura já parece bem estabelecido.

Qual a relação com a resistência à insulina

Aqui entra um ponto que conecta o lipedema com o assunto central deste blog. A insulina é um hormônio que, entre outras funções, estimula a formação de gordura (lipogênese) e dificulta a quebra da gordura já armazenada (lipólise). Quando os níveis de insulina estão cronicamente elevados, como acontece na resistência à insulina, isso pode favorecer tanto o acúmulo de gordura quanto a formação de edema (inchaço) nos tecidos. Ou seja, mesmo sem ser a causa direta do lipedema, um cenário de insulina elevada parece ser um fator que agrava o quadro e dificulta a melhora.

Isso ajuda a explicar por que uma estratégia alimentar que reduz os picos de insulina, como a alimentação baixa em carboidratos, tem sido estudada especificamente em mulheres com lipedema, e não apenas dietas voltadas só para redução calórica.

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O que os estudos mostram

Ainda são poucos os estudos sobre o tema, mas os que existem apontam numa direção consistente.

O estudo "The LIPODIET pilot study" (DOI: 10.1002/osp4.580), feito com 9 mulheres com lipedema na Noruega, comparou 7 semanas de dieta cetogênica baixa em carboidratos seguidas por mais 7 semanas de uma dieta tradicional nórdica. Houve perda de peso média de 4,6 kg e uma pequena redução na circunferência das panturrilhas durante o período de dieta baixa em carboidratos. Mas o achado que mais chama atenção é sobre a dor: ela melhorou de forma significativa apenas durante a fase de dieta baixa em carboidratos, e voltou a piorar quando as participantes passaram para a dieta tradicional nórdica, mesmo sem terem recuperado o peso perdido.
O estudo "The Effect of a Low-Carbohydrate, High-Fat Diet versus Moderate-Carbohydrate and Fat Diet on Body Composition in Patients with Lipedema" (DOI: 10.2147/DMSO.S377720), feito com 91 mulheres com lipedema na Polônia por 16 semanas, mostrou que o grupo com dieta baixa em carboidratos perdeu em média 8 kg (contra 2 kg do grupo com dieta moderada) e reduziu mais a circunferência dos membros inferiores. A melhora da dor apareceu apenas no grupo com dieta baixa em carboidratos, mesmo as duas dietas tendo a mesma quantidade de proteína.
O estudo "The effect of a low-carbohydrate diet on subcutaneous adipose tissue in females with lipedema" (DOI: 10.3389/fnut.2024.1484612), de 2024, feito com 13 mulheres com obesidade e lipedema por 8 semanas, manteve a mesma quantidade de calorias entre os grupos comparados. Mesmo com perda de peso semelhante, apenas o grupo com dieta baixa em carboidratos apresentou redução significativa da gordura subcutânea e da circunferência na panturrilha, além de melhora da dor que não pode ser explicada só pelo emagrecimento.

O que fazer com essa informação

O lipedema não tem cura conhecida até o momento, e é importante ter essa expectativa realista desde já, para não gerar frustração. Mas os estudos disponíveis sugerem que uma alimentação com menos carboidratos pode ajudar a reduzir a dor e o volume nas áreas afetadas, além dos benefícios metabólicos já conhecidos dessa abordagem. Isso não substitui outras formas de manejo já estabelecidas, como drenagem linfática, uso de contenção elástica e, em alguns casos, cirurgia, mas pode ser um complemento importante e acessível.

Se você se identificou com os sinais descritos aqui, vale buscar uma avaliação profissional para confirmar o diagnóstico, em vez de se basear apenas em conteúdo de redes sociais. E se você já sabe que tem lipedema, vale considerar a alimentação baixa em carboidratos como parte do manejo, conversando com quem te acompanha sobre a melhor forma de incluir essa estratégia na sua rotina.

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