Existe uma ideia bem espalhada de que resistência à insulina e diabetes tipo 2 são "coisa de gente acima do peso". Isso faz com que muitas pessoas magras nunca desconfiem de sintomas que já vêm sentindo, e também faz alguns profissionais de saúde relaxarem na investigação só porque o paciente "não parece" ter esse tipo de problema. Só que o peso na balança e o risco metabólico real nem sempre andam juntos, e isso tem nome: síndrome TOFI.
O que é a síndrome TOFI
TOFI é a sigla em inglês para "thin outside, fat inside" (magro por fora, gordo por dentro). Descreve pessoas com peso e IMC (índice de massa corporal) considerados normais, mas que têm uma quantidade de gordura visceral, ou seja, ao redor e dentro de órgãos como fígado, pâncreas e músculos, maior do que seria esperado para o peso que elas têm. Essa gordura "escondida" não aparece na balança nem necessariamente na aparência, mas se comporta metabolicamente como a gordura de quem tem obesidade, aumentando o risco de resistência à insulina e diabetes tipo 2.
Esse fenômeno está relacionado a um conceito um pouco mais antigo, descrito pela primeira vez ainda na década de 1980, chamado de MONW (obeso metabolicamente com peso normal, na sigla em inglês). A diferença é que a síndrome TOFI ajudou a explicar, com exames de imagem, onde exatamente essa gordura de risco se aloja em pessoas com peso normal.
De onde veio esse conceito
O termo TOFI foi proposto por um grupo de pesquisadores do Imperial College London, liderado pela pesquisadora E. Louise Thomas, em um estudo publicado na revista científica Obesity. O estudo "The missing risk: MRI and MRS phenotyping of abdominal adiposity and ectopic fat" (DOI: 10.1038/oby.2011.142), feito com 477 voluntários saudáveis no Reino Unido, usou ressonância magnética de corpo inteiro para mapear com precisão onde a gordura se distribui no corpo de cada pessoa. Os pesquisadores descobriram que medidas como IMC e circunferência da cintura não conseguiam prever, sozinhas, a quantidade real de gordura visceral e de gordura acumulada dentro do fígado e dos músculos, o que os levou a propor a existência desse subgrupo de risco escondido, batizado de TOFI.
Por que isso importa mesmo com o peso normal
O problema não é a gordura em si, mas onde ela se acumula. A gordura subcutânea, que fica logo abaixo da pele, tem uma relação muito mais fraca com resistência à insulina. Já a gordura visceral e a gordura que se deposita dentro do fígado e das fibras musculares interferem diretamente na forma como essas células respondem à insulina, dificultando a entrada de glicose e favorecendo o excesso de insulina circulando no sangue. É por isso que duas pessoas com o mesmo peso e o mesmo IMC podem ter perfis metabólicos completamente diferentes, dependendo de onde a gordura de cada uma está concentrada.
Como isso se conecta com a resistência à insulina
Essa é exatamente a razão pela qual o peso normal, sozinho, nunca deveria ser motivo de descartar uma investigação metabólica. Assim como discutido no post sobre os 12 sintomas de pré-diabetes, a resistência à insulina se desenvolve de forma silenciosa, e a insulina de jejum costuma se alterar bem antes da glicemia. Em pessoas com a síndrome TOFI, essa defasagem pode ser ainda mais enganosa, porque nem o peso nem a aparência física levantam a suspeita inicial.
O que fazer com essa informação
Não existe um exame de imagem acessível no dia a dia que meça essa gordura escondida com a mesma facilidade de uma balança, mas alguns sinais indiretos ajudam a levantar a suspeita: circunferência abdominal proporcionalmente maior mesmo com peso normal, histórico familiar de diabetes tipo 2, e os mesmos sintomas de resistência à insulina discutidos nos outros posts deste blog, independente do peso atual. Vale conversar com um profissional sobre acompanhar a insulina de jejum e o índice HOMA-IR, principalmente se houver esse histórico familiar, em vez de confiar apenas no IMC como medida de saúde metabólica.
De forma prática, os mesmos princípios que ajudam a prevenir e reverter a resistência à insulina em quem tem sobrepeso também valem aqui: reduzir o consumo de carboidratos refinados e açúcar, e cuidar de sono, atividade física e estresse, independentemente do que a balança mostra.
