Composição corporal, gordura e músculo na nova geração do tratamento da obesidade
Medicamentos e metabolismo

Bimagrumabe e obesidade: além da balança, a qualidade da perda de peso

Por muitos anos, a eficácia de um tratamento para obesidade foi resumida quase inteiramente por um número: quantos quilos a pessoa perdeu. Esse número continua importante, mas já não responde sozinho à pergunta mais relevante. O que, exatamente, foi perdido? Gordura, água, tecido magro? E como a pessoa passou a se sentir e funcionar?

A balança soma tecidos diferentes

Quando uma pessoa perde dez quilos, a balança não informa de onde esses quilos vieram. Parte pode ter vindo da gordura que se desejava reduzir. Outra parte pode corresponder a água e a tecidos classificados como massa magra. Duas pessoas podem terminar o tratamento com a mesma redução de peso e, ainda assim, apresentar mudanças muito diferentes no corpo.

Essa diferença importa porque gordura e músculo não cumprem a mesma função. Reduzir o excesso de gordura, principalmente a gordura visceral, tende a melhorar o risco metabólico. Já preservar o tecido muscular ajuda a sustentar força, mobilidade, autonomia e capacidade de realizar as tarefas do dia a dia. Por isso, a discussão sobre obesidade começou a sair da pergunta “quantos quilos foram perdidos?” e avançou para outra: “qual foi a qualidade dessa perda?”

O DXA é um exame considerado o exame padrão ouro para medir a densidade mineral óssea e investigar osteopenia e osteoporose. Quando realizado no corpo inteiro, ele também consegue estimar a composição corporal, mostrando a quantidade e a distribuição de gordura e de massa magra. Por isso, pode ser útil para acompanhar grandes perdas de peso, observar como diferentes tecidos mudam durante um tratamento e ajudar na investigação de baixa massa muscular. Mas o que o exame chama de “massa magra” não é apenas músculo. Essa categoria reúne todos os tecidos que não foram classificados como gordura ou mineral ósseo, incluindo músculos, órgãos, pele, tecido conjuntivo e água. O DXA ajuda a entender como o corpo está composto, mas não revela sozinho a qualidade do músculo, a força que ele produz ou a capacidade da pessoa de se movimentar e realizar as tarefas do dia a dia.[7]

A balança mostra o total. A composição corporal mostra de onde veio a mudança.
Para entender o resultado de um tratamento, precisamos olhar separadamente para peso, gordura, massa magra, força e capacidade física.

Por que emagrecer também pode reduzir músculos

Para que o peso diminua, o organismo precisa passar um período gastando mais energia do que recebe. Essa diferença é o déficit calórico. Ele pode ser produzido por mudanças na alimentação ou facilitado por medicamentos para obesidade. As chamadas “canetinhas” não anulam essa lógica. Elas modificam sinais de fome e saciedade, retardam o esvaziamento do estômago e melhoram a regulação da glicose, o que pode ajudar a pessoa a consumir menos energia e sustentar o tratamento.

Quando precisa completar essa diferença, o corpo mobiliza suas reservas. A maior parte do peso perdido costuma vir da gordura, que é justamente o tecido que se pretende reduzir, mas ela não é a única fonte. Dietas com restrição calórica, cirurgia bariátrica e medicamentos também podem levar à redução de tecidos magros. Em estudos de emagrecimento, aproximadamente 25% a 40% do peso perdido pode corresponder a massa magra, embora essa proporção varie muito entre pessoas e métodos.[1]

Isso não significa que toda pessoa perderá a mesma quantidade de músculo nem que os medicamentos destruam músculos diretamente. A velocidade do emagrecimento, a quantidade de proteína ingerida, o treino de força, a idade, o nível de atividade física, a massa muscular inicial e a presença de doenças influenciam o resultado. Quanto mais intenso for o déficit e menor for o estímulo para preservar o músculo, maior pode ser a participação do tecido magro na perda.

Ao emagrecer, o corpo também passa a gastar menos energia. Uma parte dessa redução acontece simplesmente porque um corpo menor necessita de menos energia para ser mantido e movimentado. Outra parte decorre da perda de tecidos que consomem energia, entre eles o músculo. Ou seja, perder músculos ajuda a desacelerar o metabolismo ainda mais. Além disso, o organismo pode reduzir o gasto além do esperado para o novo peso, fenômeno chamado adaptação metabólica. Portanto, perder músculo pode contribuir para a queda do metabolismo de repouso, mas não é a única explicação para ela.[8]

A importância do músculo vai muito além do gasto calórico. Ele sustenta movimento, força, equilíbrio, proteção das articulações e independência ao longo da vida. Também tem um papel central no controle da glicose. Depois de uma refeição, o músculo esquelético é o principal destino da glicose retirada do sangue sob a ação da insulina, respondendo por mais de 80% da captação de uma carga de glicose em condições estudadas.[9]

Uma perda muscular severa reduz esse grande espaço de utilização da glicose e pode contribuir para piorar a sensibilidade à insulina, especialmente quando se combina com sedentarismo, aumento de gordura visceral e acúmulo de gordura dentro do próprio músculo. A relação também funciona no sentido contrário: a resistência à insulina pode prejudicar o metabolismo muscular e favorecer a perda de músculo. Isso não significa que uma pequena redução de massa magra durante o emagrecimento cause diabetes, mas mostra por que preservar músculo é parte importante da saúde metabólica.[9]

Foi justamente a busca por uma perda de peso com maior participação da gordura e menor comprometimento do tecido magro que abriu espaço para uma nova linha de medicamentos experimentais.

É aqui que entra o bimagrumabe

O bimagrumabe é um medicamento experimental. Ele não pertence à mesma classe do Ozempic, do Wegovy ou do Mounjaro e não foi criado inicialmente como uma nova caneta para reduzir o apetite. Para entender sua proposta, primeiro precisamos conhecer o sistema que controla o tamanho dos músculos.

Agora precisamos entrar brevemente em alguns termos técnicos, porque eles são necessários para entender como essa nova medicação atua.

A miostatina e a activina A são proteínas produzidas pelo próprio organismo. No músculo, elas funcionam como reguladoras do crescimento. Quando se ligam aos receptores de activina tipo II, localizados na superfície das células musculares, ativam uma sequência de sinais que limita o acúmulo de proteínas e impede que as fibras musculares continuem crescendo sem controle. Em outras palavras, elas ajudam a acionar um freio biológico para o crescimento muscular.[1]

Um anticorpo monoclonal é uma proteína produzida em laboratório para reconhecer e se ligar a um alvo específico. O bimagrumabe foi desenvolvido para se encaixar nos receptores de activina tipo IIA e IIB. Ao ocupar esses receptores, dificulta a ligação da miostatina, da activina A e de outras proteínas da mesma família. Sem conseguir se ligar ao receptor, essas moléculas não transmitem com a mesma intensidade o sinal que limita o crescimento do músculo.[1]

Em resumo, o organismo produz sinais que impedem o músculo de crescer sem limite, um controle necessário para manter o equilíbrio do corpo. O bimagrumabe reduz parte desses sinais ao bloquear os receptores que os recebem. Com esse freio menos acionado, as fibras musculares encontram mais espaço para crescer.

Essa possibilidade motivou o desenvolvimento inicial do medicamento para condições associadas à perda de massa muscular. Durante os estudos, porém, apareceu outro achado: além do aumento de massa magra, os participantes também apresentaram redução de gordura corporal.[1]

A explicação para a redução de gordura ainda não está completamente esclarecida. A sinalização dos receptores de activina participa da biologia do músculo e do tecido adiposo, mas os pesquisadores ainda investigam quanto do efeito ocorre diretamente nas células de gordura e quanto surge indiretamente das mudanças no músculo e no gasto de energia. O que os estudos em humanos mostraram até agora foi uma combinação incomum: redução de gordura sem que o medicamento precisasse agir principalmente diminuindo o apetite, acompanhada de aumento ou maior preservação da massa magra.[1]

Esse resultado ajuda a explicar o interesse pelo bimagrumabe, mas não transforma uma hipótese promissora em tratamento disponível. O medicamento continua em pesquisa, não está aprovado para o tratamento da obesidade e ainda precisa demonstrar segurança e benefício em estudos maiores e mais longos.

O que o estudo BELIEVE quis descobrir

Medicamentos como a semaglutida podem produzir uma redução importante do peso corporal. Como acontece também com dieta e cirurgia bariátrica, uma parte dessa redução pode vir da massa magra. Os pesquisadores do BELIEVE fizeram então uma pergunta direta: o que aconteceria se a redução de apetite promovida pela semaglutida fosse combinada a um medicamento que atua na via do músculo e do tecido adiposo?

O BELIEVE foi um ensaio clínico randomizado de fase 2 com 507 adultos com obesidade ou sobrepeso associado a uma complicação, mas sem diabetes. Os participantes foram distribuídos entre placebo, bimagrumabe, semaglutida e diferentes combinações dos dois medicamentos. O período principal durou 48 semanas, com extensão até a semana 72. Todos também receberam orientação para reduzir a ingestão energética, consumir proteína suficiente e praticar atividade física.[1]

Quando a balança conta apenas metade da história

Na semana 72, a semaglutida 2,4 mg isolada reduziu o peso corporal em 15,7%. O bimagrumabe na dose mais alta reduziu o peso em 10,8%. Se olhássemos apenas para a balança, pareceria que a semaglutida produziu um resultado claramente superior.[1]

Mas, quando os pesquisadores analisaram a composição corporal dos participantes, a história mudou. A gordura corporal caiu 27,8% com semaglutida e 28,5% com bimagrumabe. Isso significa que, apesar da diferença no peso total, os dois medicamentos produziram uma redução percentual de gordura muito semelhante. A principal diferença apareceu quando o DXA, aquele exame explicado no início desta postagem, foi usado para estimar a massa magra. No grupo da semaglutida, a massa magra diminuiu 7,4%. No grupo do bimagrumabe, ela aumentou 2,5%.[1]

As duas medicações foram desenvolvidas com objetivos diferentes. A semaglutida atua principalmente sobre fome, saciedade, ingestão alimentar e controle da glicose. Ela já passou por grandes estudos, foi aprovada para indicações específicas e está disponível em produtos de uso clínico. O bimagrumabe segue outro caminho: tenta modificar a composição corporal ao reduzir o freio sobre o crescimento muscular e favorecer a perda de gordura sem depender principalmente da diminuição do apetite. Ele ainda está em fase de testes e desenvolvimento.[1]

No BELIEVE, o bimagrumabe precisava ser administrado por infusão intravenosa a cada 12 semanas. Isso exige acesso a uma veia, estrutura clínica e tempo para receber a medicação, o que torna o uso muito menos prático do que uma caneta aplicada em casa. Uma formulação subcutânea está sendo estudada, mas ainda não existem resultados públicos que permitam tratá-la como um produto pronto. É justamente a diferença entre esses dois mecanismos que conduz à próxima pergunta do estudo: o que acontece quando eles são usados em conjunto?[1][2]

Qual combinação trouxe os melhores resultados?

A próxima pergunta do BELIEVE foi: entre as doses testadas, qual combinação de semaglutida e bimagrumabe produziria os melhores efeitos sobre o peso e a composição corporal, e quais efeitos colaterais apareceriam quando os dois medicamentos fossem usados juntos?

Para responder, os pesquisadores testaram a semaglutida nas doses semanais de 1,0 mg e 2,4 mg, o bimagrumabe nas doses de 10 mg e 30 mg por quilo de peso a cada 12 semanas e quatro combinações entre essas doses. Os resultados mais expressivos apareceram com 2,4 mg de semaglutida por semana e 30 mg de bimagrumabe por quilo a cada 12 semanas. A tabela compara essa combinação com as doses mais altas de cada medicamento usado isoladamente até a semana 72.[1]

TratamentoPeso corporalGordura corporalMassa magra estimada pelo DXA
Semaglutida 2,4 mg por semanaredução de 15,7%redução de 27,8%redução de 7,4%
Bimagrumabe 30 mg/kg a cada 12 semanasredução de 10,8%redução de 28,5%aumento de 2,5%
Semaglutida 2,4 mg + bimagrumabe 30 mg/kgredução de 22,1%redução de 45,7%redução de 2,9%

A comparação mostra o que os números isolados escondiam. A dose mais alta de semaglutida produziu maior perda de peso do que a dose mais alta de bimagrumabe quando cada medicamento foi usado sozinho. Ao combinar os dois, porém, a redução do peso e da gordura corporal foi maior do que a observada com qualquer um deles isoladamente. Houve perda de massa magra, mas ela foi menor do que no grupo que recebeu apenas semaglutida.

Segundo o cálculo dos pesquisadores, 92,2% do peso perdido com a combinação veio da gordura. No grupo da semaglutida isolada, essa proporção foi de 75,6%. Em termos simples, a combinação não evitou completamente a redução de massa magra, mas fez com que uma parcela maior do peso perdido fosse composta por gordura.[1]

Os efeitos colaterais refletiram os perfis dos dois medicamentos. Nos grupos que receberam bimagrumabe, foram frequentes espasmos musculares, diarreia e acne. A semaglutida esteve mais associada a náusea, diarreia, constipação e fadiga. Durante as primeiras 48 semanas, eventos adversos levaram à interrupção do tratamento em 5,3% a 12,5% dos participantes que receberam alguma das combinações.[1]

Esses resultados descrevem médias dos grupos. Eles não significam que todas as pessoas responderam da mesma forma. Também é importante lembrar que o estudo estimou massa magra pelo DXA. Como vimos, essa medida não corresponde diretamente à quantidade de músculo contrátil nem demonstra, sozinha, melhora de força ou função física.

Mais massa magra significou mais força e proteção contra quedas?

Depois de observar que o bimagrumabe aumentou ou preservou uma parcela maior da massa magra medida pelo DXA, surgiu uma pergunta mais prática: essa mudança também tornou os participantes mais fortes? E uma eventual melhora da força seria suficiente para reduzir o risco de quedas e lesões causadas pela fraqueza?

O DXA não consegue responder a essas perguntas. Ele estima a quantidade de massa magra, mas não mede a qualidade do músculo nem sua capacidade de produzir força. Duas pessoas podem apresentar quantidades semelhantes de tecido magro e ter desempenhos muito diferentes, porque a força também depende da qualidade muscular, do controle do sistema nervoso, do treinamento, do equilíbrio, da idade e das condições de saúde.

Por isso, o BELIEVE incluiu um teste de força de preensão manual, realizado com um aparelho que mede a força usada para apertar a mão. Na semana 48, somente o grupo que recebeu bimagrumabe 30 mg/kg combinado à semaglutida 1,0 mg apresentou um aumento de força estatisticamente superior ao placebo: 4,8 kg contra 1,7 kg. Nos demais grupos, os resultados foram semelhantes aos do placebo, o que significa que o ganho de força não apareceu de maneira repetida entre as diferentes doses e combinações. Os participantes também responderam a questionários sobre sua capacidade de realizar atividades físicas. Na semana 48, essas respostas foram semelhantes entre os grupos. Alguns relatos sugeriram melhora posteriormente, mas o padrão geral continuou inconsistente. Em resumo, o estudo mostrou mudanças na massa magra medida pelo DXA, mas não demonstrou de forma clara e repetida que essas mudanças se transformaram em mais força ou melhor capacidade física.[1]

Uma possível explicação está no perfil dos participantes. Eles tinham, em média, 47,5 anos e não precisavam apresentar fraqueza, sarcopenia ou dificuldade de mobilidade para entrar no estudo. Quando uma pessoa começa a pesquisa com força e função física preservadas, existe menos espaço para que uma melhora apareça em testes simples.

O BELIEVE demonstrou, portanto, uma mudança na composição corporal medida pelo DXA, mas não foi capaz de demonstrar que essa mudança evitava quedas, lesões ou perda de independência. Essas respostas exigem estudos com pessoas idosas, frágeis ou com sarcopenia. Além da composição corporal, esses estudos precisarão avaliar força dos braços e das pernas, equilíbrio, velocidade de marcha, capacidade de levantar-se de uma cadeira, ocorrência de quedas e autonomia nas atividades diárias.

Os resultados são promissores, mas o medicamento ainda é experimental

O BELIEVE foi um estudo de fase 2. Essa etapa serve para identificar doses, estimar efeitos e decidir se a estratégia merece avançar. Ela não oferece o mesmo grau de certeza de estudos maiores de fase 3 nem responde o que acontece após anos de uso.

Os efeitos adversos mais frequentes ajudam a entender o que a tolerabilidade significou na prática. Nos grupos que receberam bimagrumabe, apareceram principalmente espasmos musculares, geralmente descritos como cãibras, diarreia e acne. Nos grupos com semaglutida, foram mais comuns náusea, diarreia, constipação e fadiga. Quando os dois medicamentos foram combinados, os participantes podiam apresentar efeitos associados a ambos. Cinco pessoas interromperam o bimagrumabe isolado por causa dos espasmos musculares, quatro interromperam o tratamento por acne, sendo duas nos grupos de bimagrumabe e duas nos grupos da combinação, e seis interromperam as combinações por náusea. Houve ainda um caso de acne grave e cinco participantes com eventos musculares graves, como espasmos e dor nas costas. Os pesquisadores afirmam que o mecanismo responsável pela acne e pelos espasmos ainda precisa ser esclarecido.[1]

Os exames laboratoriais acrescentaram outros sinais que precisam ser acompanhados. A creatina quinase é uma enzima encontrada principalmente nos músculos. Seu aumento pode acontecer quando o tecido muscular sofre estresse ou lesão, mas o resultado precisa ser interpretado junto com a intensidade da elevação e a presença de sintomas. Por isso, um aumento médio de creatina quinase no estudo não significa que todos os participantes sofreram uma lesão muscular. A fosfatase alcalina também aumentou nos grupos com bimagrumabe. Essa enzima pode se alterar em condições relacionadas ao fígado, às vias biliares ou aos ossos. As enzimas ALT e AST, usadas principalmente para acompanhar possíveis alterações no fígado, apresentaram elevações transitórias. A AST também pode aumentar por alterações musculares. Esses resultados funcionam como sinais que precisam ser monitorados e interpretados em conjunto, não como prova isolada de dano hepático.[1]

O magnésio diminuiu, em média, nos grupos com bimagrumabe, mas permaneceu dentro da faixa normal. Isso significa que o estudo identificou uma mudança laboratorial, mas não demonstrou uma deficiência generalizada de magnésio. A lipase, uma enzima usada na avaliação do pâncreas, também aumentou. Com bimagrumabe, essa elevação foi transitória. Com semaglutida, permaneceu por mais tempo. Uma lipase elevada não confirma sozinha uma pancreatite, mas ganha importância quando aparece junto com sintomas, como dor abdominal. Os casos de pancreatite foram pouco frequentes e ocorreram em grupos diferentes, inclusive no placebo, o que não permite atribuí-los automaticamente a um único medicamento.[1]

Outro achado foi o aumento do colesterol LDL nos grupos que receberam apenas bimagrumabe. Na dose de 30 mg/kg, o LDL estava 17,6% acima do valor inicial na semana 72. Na combinação das doses mais altas, esse aumento não permaneceu e a variação foi de 0,1%. Como o LDL participa do risco cardiovascular, esse sinal precisa ser acompanhado em estudos maiores e mais longos. O BELIEVE não foi desenhado para descobrir se essa alteração se transformaria em mais infartos ou outros eventos cardiovasculares. Não houve mortes nem alterações clinicamente relevantes nos parâmetros renais ou hematológicos, mas o conjunto desses achados mostra por que eficácia, tolerabilidade e segurança precisam ser avaliadas ao mesmo tempo.[1]

Antes de transformar esses resultados em uma conclusão definitiva, é preciso entender o que o desenho do BELIEVE permitia responder. O bimagrumabe e seu placebo foram mascarados, mas a semaglutida foi aplicada com canetas comerciais e não havia uma caneta placebo idêntica disponível. Por isso, participantes e pesquisadores sabiam quem estava recebendo semaglutida. Esse conhecimento pode influenciar expectativas, relatos de sintomas, adesão e até a decisão de continuar no estudo. Os próprios autores reconhecem que alguns participantes podem ter abandonado a pesquisa por perceberem que não haviam recebido semaglutida.[1]

Os 507 participantes foram divididos em nove grupos. Isso deixou cerca de 56 pessoas em cada grupo e produziu muitas comparações entre doses, medicamentos e desfechos. Em várias dessas análises não houve correção estatística para o número de comparações realizadas. Quanto mais comparações são feitas, maior é a possibilidade de algum resultado parecer significativo apenas pelo acaso. Além disso, aproximadamente um quarto dos participantes não concluiu o período principal de 48 semanas. O estudo também não tinha tamanho nem duração para descobrir se o tratamento reduziria quedas, incapacidade, infartos ou mortalidade, nem para identificar efeitos adversos muito raros.[1]

O ensaio foi desenhado e supervisionado pela Versanis Bio, empresa adquirida pela Eli Lilly. A participação da fabricante não invalida os dados, mas reforça a necessidade de reprodução dos resultados por estudos maiores e de avaliação independente. O BELIEVE deve ser entendido como uma prova de conceito de fase 2: ele mostrou que modificar a composição do peso perdido parece possível, mas não encerrou as perguntas sobre benefício funcional, segurança prolongada ou aplicação na prática clínica.[1]

A mesma ideia está sendo testada por caminhos diferentes

O BELIEVE não é uma iniciativa isolada. Várias empresas tentam combinar uma incretina, responsável por reduzir a ingestão alimentar e favorecer a perda de peso, com um medicamento experimental dirigido aos sinais que limitam o crescimento muscular. A diferença está no ponto escolhido para interferir nesse sistema. O bimagrumabe bloqueia os receptores que recebem sinais de diferentes proteínas. Outros anticorpos agem de forma mais seletiva sobre a miostatina ou sobre a activina A. A pergunta comum é se alguma dessas estratégias consegue fazer com que uma parcela maior do peso perdido venha da gordura sem acrescentar riscos ou efeitos colaterais que inviabilizem o tratamento.

Apitegromabe: impedir a ativação da miostatina

O apitegromabe é um anticorpo monoclonal desenvolvido para se ligar às formas precursoras da miostatina, antes que ela se torne ativa. Em vez de bloquear o receptor usado por várias proteínas, ele tenta impedir especificamente a ativação da miostatina. Essa seletividade foi pensada para reduzir o sinal que limita o músculo sem interferir diretamente em outros integrantes da mesma família.[3]

Essa estratégia foi avaliada no EMBRAZE, um estudo de fase 2 já concluído e publicado em artigo revisado por pares em 2026. Os 102 participantes receberam tirzepatida semanal, em doses aumentadas gradualmente até o máximo de 15 mg, e foram divididos entre apitegromabe por infusão intravenosa a cada quatro semanas ou placebo. Portanto, todos usaram tirzepatida; o que mudou foi a presença ou ausência do apitegromabe.[3]

Após 24 semanas, o grupo do apitegromabe havia perdido 1,9 kg a menos de massa magra medida por DXA, o equivalente a uma preservação relativa de 54,9%. A perda total de peso foi semelhante nos dois grupos. Isso sugere que o apitegromabe mudou a composição do peso perdido, mas não aumentou o emagrecimento total. O estudo também não encontrou diferença importante nas medidas de função física. Como foi uma pesquisa curta, com apenas 102 participantes e critérios estatísticos exploratórios, o resultado funciona como prova de conceito, não como confirmação de benefício clínico no longo prazo.[3]

Trevogrumabe e garetosmabe: bloquear dois sinais diferentes

O trevogrumabe é um anticorpo contra a miostatina, também chamada GDF8. Ao neutralizá-la, tenta reduzir um dos sinais que limitam o crescimento muscular. O garetosmabe atua sobre a activina A, outra proteína capaz de participar dessa regulação. O estudo COURAGE testou semaglutida combinada ao trevogrumabe e, em outro grupo, uma combinação tripla com semaglutida, trevogrumabe e garetosmabe. A lógica da combinação tripla era bloquear dois sinais reguladores do músculo ao mesmo tempo, buscando um efeito maior sobre a composição corporal.[4][5]

O COURAGE é um estudo de fase 2, randomizado e mascarado, que permanece ativo, mas não está mais recrutando participantes. Seu registro atual inclui 1.005 pessoas distribuídas entre diferentes etapas. Na fase inicial de perda de peso, os grupos receberam semaglutida 2,4 mg isolada, semaglutida com 200 mg ou 400 mg de trevogrumabe por via subcutânea, ou a combinação tripla com 400 mg de trevogrumabe e 10 mg/kg de garetosmabe por infusão intravenosa. Depois das primeiras 26 semanas, o estudo passou a investigar também a manutenção dos resultados.[10]

Nos resultados de 26 semanas apresentados pela Regeneron, acrescentar trevogrumabe evitou aproximadamente metade da perda de massa magra observada com semaglutida isolada. A combinação tripla apresentou a menor redução de massa magra e a maior redução de gordura, mas também teve mais problemas de tolerabilidade e mais interrupções. Dois participantes desse grupo morreram durante o estudo. A empresa declarou não ter identificado relação causal entre as mortes e o tratamento. Esses dados foram apresentados em congresso e divulgados pela fabricante, mas ainda não correspondem a um artigo completo revisado por pares. Portanto, precisam ser interpretados como resultados preliminares de fase 2.[5]

Bimagrumabe subcutâneo com tirzepatida

A Lilly também conduz um estudo de fase 2 com bimagrumabe e tirzepatida. A tirzepatida atua nos receptores de GIP e GLP-1 e ajuda a reduzir a ingestão alimentar, enquanto o bimagrumabe atua nos receptores de activina tipo II. O objetivo é verificar o que acontece quando esses mecanismos são usados separadamente e em conjunto.[2]

Esse ensaio incluiu 252 adultos com obesidade ou sobrepeso, mas sem diabetes tipo 2. Diferentemente do BELIEVE, o bimagrumabe é administrado por via subcutânea. O estudo compara doses diferentes, combinações com tirzepatida e formas distintas de aumentar a dose do bimagrumabe. Ele está ativo, mas não recruta mais participantes, e o registro prevê conclusão em janeiro de 2027. Até o momento, não há resultados publicados no registro. Portanto, ainda não sabemos se a aplicação subcutânea manterá os efeitos observados com a infusão intravenosa, se será mais bem tolerada ou qual combinação oferecerá o melhor equilíbrio entre perda de gordura, massa magra e segurança.[2]

O que muda na forma de acompanhar o emagrecimento

Enquanto esses medicamentos permanecem em pesquisa, a mudança mais imediata está na forma de acompanhar o emagrecimento. A balança não perdeu sua utilidade. O peso corporal continua sendo uma medida simples, acessível e clinicamente relevante, mas não deve carregar sozinho toda a avaliação.

Uma pessoa pode reduzir bastante o peso e precisar de atenção adicional à força e à ingestão de proteína. Outra pode apresentar uma mudança menor na balança, mas uma redução importante da cintura e da gordura visceral. O contexto define o significado do número.

Na prática, o acompanhamento pode reunir medidas diferentes: circunferência da cintura, sintomas, ingestão alimentar, evolução das cargas no treino, capacidade de sentar e levantar, velocidade de marcha e, quando houver indicação, avaliação de composição corporal. Nenhuma dessas medidas isoladamente oferece um retrato completo.

Proteína e treino resistido continuam importantes

Enquanto os novos medicamentos continuam sendo estudados, algumas medidas já podem ajudar a cuidar dos músculos e da capacidade física durante o emagrecimento. Uma delas é consumir proteína em quantidade suficiente e distribuí-la de maneira adequada nas refeições. A necessidade de cada pessoa varia conforme a idade, a saúde, o nível de atividade física, a intensidade da redução de calorias e o funcionamento dos rins. Por isso, não existe uma quantidade única de proteína que sirva para todos.[6]

A proteína fornece os componentes que o corpo utiliza para manter e reparar os tecidos, mas ela não trabalha sozinha. O músculo também precisa receber o estímulo do treino de força, com exercícios adaptados à condição de cada pessoa e progressão ao longo do tempo. Atividade aeróbica, sono de qualidade, descanso e alimentação suficiente para sustentar o treinamento completam esse cuidado.[6]

Medicamentos capazes de auxiliar o emagrecimento e reduzir a perda de massa magra podem se tornar recursos importantes. Ainda assim, eles não substituem os cuidados que já podem ser colocados em prática: alimentação adequada, consumo individualizado de proteínas, treino de força, atividade física regular, sono de qualidade e acompanhamento profissional. Essas medidas não garantem que nenhuma massa magra será perdida, mas ajudam a preservar força, função e saúde enquanto o peso diminui.

O achado mais importante não é um novo remédio

O bimagrumabe pode avançar nos estudos, ser reformulado, encontrar uma indicação ou não chegar ao mercado. Ainda é cedo para saber. Mas a pesquisa já expôs uma limitação na forma como costumamos falar de emagrecimento.

Perder peso e perder gordura não são expressões equivalentes. Preservar massa magra por DXA também não significa automaticamente preservar força, mobilidade ou independência. Cada resultado responde a uma pergunta diferente.

A próxima geração de tratamentos para obesidade tenta fazer com que uma parcela maior do peso perdido venha da gordura. O verdadeiro avanço, porém, só estará completo quando essa mudança também se traduzir em segurança, força, função física e saúde no longo prazo.

Fontes e leituras

  1. BELIEVE: bimagrumab plus semaglutide, ensaio fase 2
  2. NCT06643728: bimagrumabe e tirzepatida
  3. EMBRAZE: apitegromabe para preservação de massa magra com tirzepatida
  4. Resultados interinos do estudo COURAGE, Regeneron
  5. Resultados completos de 26 semanas do COURAGE apresentados no EASD, Regeneron
  6. Mozaffarian et al. Nutritional priorities to support GLP-1 therapy for obesity: a joint Advisory. American Journal of Clinical Nutrition, 2025.
  7. Dual-energy X-ray absorptiometry body composition in patients with secondary osteoporosis
  8. Tissue losses and metabolic adaptations both contribute to the reduction in resting metabolic rate following weight loss
  9. Role of Skeletal Muscle in Insulin Resistance and Glucose Uptake
  10. NCT06299098: estudo COURAGE de fase 2

Posts relacionados

Bela Nutrição · Conteúdo educacional, não substitui acompanhamento médico ou nutricional individualizado.